25.7.06

foto # 23A > Passagens


Caminhos existem
na contra-mão do destino,
sabendo-se olhar...


Tinha que fazer uma foto do Curvelo, um dos pontos-chaves de Santa Teresa. Mais uma vez, a opção foi subir num muro...
Além de tradicional ponto de parada dos bondinhos com jeito de estação, ali chegam ladeiras vindas da Lapa e da Glória e dali a rua Joaquim Murtinho, que começa nos Arcos, passa a ser a Alte. Alexandrino, serpeando colina acima.
Esse era o caminho dos canos do aqueduto que abastecia o chafariz do largo da Carioca, passando pelos Arcos da Lapa (e lá se vão mais de dois séculos!). Passou a via de bondes e continua sendo a coluna vertebral do bairro (talvez necessitada, hoje em dia, de umas massagens...).
Há no Curvelo uma história que se adivinha e que não deve ter sido contada em grandes volumes e bravatas e discursos, mas em tantas conversas ao pé do ouvido, tantas confidências à espera do bonde, entre tantos goles de cerveja, à chuva, ao sol, por tantas pessoas comuns, desde os romeiros à capela de N.S. do Desterro ou os escravos fugitivos dos tempos coloniais, até os donos de chácaras, os funcionários públicos, estrangeiros, artistas e o povo em geral, até hoje... Sabe-se que é uma saga de resistência e criatividade.
A foto lembra que alguns caminhos podem parecer errados, proibidos, interditados, mas é possível que a história não seja bem assim, que esta seja uma alegoria ao desenrolar da história desse povo... É uma face freqüente, útil e perigosa da fotografia, a capacidade de criar ilusões, de complicar (ou sofisticar) o que é simples, de fazer da arte um engodo.
Tomou tempo esperar um carro que mostrasse o outro lado do caminho...O fato é que o Curvelo é ponto de chegada, ponto de partida, ponto de passagem... E os dramas são sempre passageiros, exceto o cobrador e o motorneiro...